34 Aprendizagens

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Gostaria de ter começado e terminado de escrever este texto assim que fiz 33 anos. Como não foi possível, resolvi escrever agora que completei os 34.

Confesso que me sinto melhor hoje do que quando tinha 15 ou 20 anos. Sinto-me livre, libertei-me de dogmas e crenças.

Aprendi a libertar-me de pessoas e situações que causam aborrecimentos e sofrimentos desnecessários. Somos muito pequenos neste universo, podemos partir a qualquer momento e não vale a pena perder tempo a odiar, em disputas e discussões inúteis.

Aprendi e interiorizei o seguinte:

  1. Não controlo o pensamento das outras pessoas a meu respeito.
  2. É impossível agradar a todos.
  3. Por mais que ame os que me são próximos, não consigo protege-los se eles não se protegerem a si mesmos.
  4. O sucesso não é o resultado de um acaso, vem com muito trabalho.
  5. Não sou responsável pela felicidade de ninguém, cada um é responsável pela sua própria felicidade.
  6. Por mais que faças sugestões bem-intencionadas, as pessoas não vão acatar o que dizes, a não ser que elas mesmas tomem essa decisão.
  7. Por mais enfática que eu seja nos argumentos que uso, os outros só vão mudar se quiserem.
  8. Os outros só me podem magoar se eu permitir.
  9. Sofrer e estar preocupado/a por antecipação, não resolve os problemas
  10. É justamente quando as coisas não correm bem que devo ser forte, devo ter fé, devo ter calma e canalizar as melhores energias para resolver os problemas.
  11. Cada um é responsável pelas escolhas de vida que faz.
  12. Sou o resultado de um conjunto de escolhas e decisões que tomei na vida e não um acaso da inveja, do azar, pragas ou uma força invisível.
  13. A vida é uma luta. Não domino os infortúnios que podem acontecer, mas posso dominar a forma como reajo a eles.
  14. Os laços biológicos não determinam a relação de proximidade ou afinidade que tenho com as pessoas. Todas as relações humanas têm de ser construídas, alimentadas e preservadas.
  15. A morte física faz parte da ordem natural da vida e não devo viver atormentada por isso, devo aceitá-la e aproveitar viver o melhor que posso enquanto cá estou. Estar vivo é uma bênção.
  16. Sou o resultado dos meus pensamentos e posso mudar a realidade, pela forma como olho para ela.
  17. Posso até olhar para a história de vida dos outros, mas não devo achar que o que aconteceu aos outros me vai acontecer exactamente igual, porque os protagonistas da história são diferentes.
  18. Estar constantemente a reviver o passado impede-nos de usufruir do presente. Tudo está a acontecer no AGORA. Devemos sim, olhar para o passado para reter as lições aprendidas, mas não viver presos ao mesmo.
  19. Não devo estar a condenar-me pelas coisas que fiz no passado. Devo antes aceitar que fiz essas escolhas nas circunstâncias e com o conhecimento que na altura me pareceu ser o melhor.
  20. O casamento é uma construção diária.
  21. O medo impede-nos de viver.
  22. Nas relações com aqueles que nos são importante não deve haver nuvens a pairar no ar, o que é importante deve ser dito.
  23. A beleza tem a ver com o meu bem-estar físico, mental e espiritual.
  24. Somos insubstituíveis apenas para aqueles que nos são próximos.
  25. Não vale a pena desgastar a nossa vida para resolver o problema dos outros. Se partirmos, os outros vão reequilibrar as suas vidas para resolver os seus próprios problemas que, até ao momento julgávamos incapazes.
  26. Não vale a pena perder tempo a discutir com pessoas irracionais.
  27. Eu sou o meu activo mais importante, por isso, devo investir em mim até ao fim.
  28. O que é bom para os outros, não significa que seja o melhor para mim.
  29. Jamais me devo comparar com os outros. Devo sim, procurar superar-me a mim mesma todo o tempo.
  30. A decisão última das minhas opções é minha.
  31. Não devo ter medo de amar.
  32. Antes de ser aceite por quem quer que seja, devo aceitar-me a mim mesma.
  33. O tempo é o nosso activo mais importante.
  34. O trabalho dignifica o homem. Posso nem sempre fazer o que gosto, mas posso encontrar sempre alguma satisfação naquilo que faço.
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Homenagem a outras Mulheres Angolanas

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Hoje, 31 de Julho, celebra-se o dia da Mulher Africana. Para Angola, esta é uma data de profunda reflexão sobre os enormes desafios que a Mulher africana tem no âmbito da estabilidade e desenvolvimento do Continente”, segundo a Sra. Secretária de Estado da Cooperação, Ângela Bragança.

Do meu ponto de vista, ainda temos um longo caminho a percorrer. Não é apenas ao nível da representatividade nos órgãos de tomada de decisão que se demonstra que “TODAS” as Mulheres Angolanas têm poder efectivo e as suas vozes são realmente ouvidas.

É com alguma tristeza (e revolta até), que assistimos diariamente ao tratamento indigno que é dado às Zungueiras, que ao gerirem o seu pequeno negócio são tão Mulheres Angolanas como as outras.

Estas ainda não têm voz como as outras, não têm acesso aos cuidados de saúde, não têm acesso a educação para os seus filhos, não têm tantas outras coisas e quantas vezes ainda veem o seu pequeno negócio ser “levado” pelos fiscais.

Aqui fica um pensamento para estas outras Mulheres Angolanas.

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Prioridade: Conhecer-se a si mesmo

É tramado quando a irracionalidade e a suposição gratuita cegam o discernimento das pessoas. Aí reside um perigo e as pessoas tornam-se capazes das maiores desumanidades.

As pessoas agem e fazem os seus julgamentos apoderados/as pelas emoções que os/as dominam e cavalgam sobre o seu discernimento como tornados.

Enquanto a guerra aberta aos outros (que não suportam) são palavras, que podem ferir, (se os outros permitirem) é um mal menor, há os casos daqueles, que têm nas suas mãos o poder de decisões que podem afectar a Família, a Empresa ou um País. Nessas escalas sim, as consequências são ainda mais brutais.

Já tiveram uma conversa ou discussão com alguém cego pela irracionalidade?

É um desperdício de tempo e de energia, porque esse alguém entende apenas o que quer com base na (estreita) bagagem do seu espirito e das suas vivências.

Podemos dialogar procurando explicar ou esclarecer uma dada situação, e a única coisa que esse alguém percebe é o balbuciar das palavras. É mesmo tramado, por causa da irracionalidade se declaram guerras pessoais que não têm lógica nenhuma.

A sociedade estimula-nos para o cultivo do conhecimento (a ciência, a tecnologia, a cultura, o mundo, etc.). No entanto e ao mesmo tempo, dedicamos pouco tempo ou quase nenhum para o autoconhecimento, sendo esta parte de nós pelo menos tão importante.

Esquecemo-nos que o cultivo do bem-estar físico, mental, espiritual e afectivo são chaves para uma vida equilibrada.

Actualmente estou numa situação profissional, que requer (para já) um trabalho mais solitário. Por isso, tem sido muito o tempo que tenho passado comigo.

Por isso, o tempo de confronto comigo mesma, com as minhas fragilidades e com as minhas forças, de autoconhecimento enfim, além de outros ganhos, já fizeram valer a pena este período.

Ocorro-me a imagem de pessoas que frequentam o ginásio e querem ter uma boa saúde física dedicando assim maior atenção à alimentação e aos exercícios, para alcançar os objectivos definidos.

Tenho aprendido neste período de trabalho que devíamos treinar os nossos espíritos como se de um músculo se tratasse. Dá luta treinar o espírito, mas vale a pena o esforço.

Quando dedicamos tempo a conhecer-nos, e a tomar consciência das nossas fraquezas e das nossas forças, descobrimos que é dentro de nós que reside, muitas das vezes a resolução de alguns grandes problemas, e que temos um tesouro imensurável connosco que desconhecíamos.

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Je suis Garissa (Universidade do Quénia)

Je suis Garissa (Universidade do Quénia).

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Je suis Garissa (Universidade do Quénia)

No dia 2 de Abril, homens armados que pertenciam ao grupo Islâmico rebelde Somali Al Shabab num acto bárbaro e inqualificável massacraram 147 jovens estudantes da Universidade Garissa, no leste do Quénia, fronteira com a Somália.

O mundo acorda com esta notícia sangrenta e a Páscoa ficou marcada por estes brutais acontecimentos, verdadeiro acto de selvajaria. O ser humano no seu pior…

No Jornal público do meu pais, por exemplo, a notícia teve a merecida atenção, estava na 9º página, no canto inferior direito e não ocupava nem ¼ da página. Sem medo de errar, acredito que, a mesma atenção ou falta dela ou manifestações de repúdio por tais actos devem-se ter repetido pelo mundo fora.

No dia 7 de Janeiro de 2014, o Jornal Charlie Hebdo em Paris foi atacado por 7 homens armados que mataram 12 pessoas, “vingando-se” dos autores que faziam caricaturas de Maomé. Em protesto, milhões de pessoas saíram às ruas em França e em vários países do mundo criticando o ataque e erguendo cartazes com mensagens “Je suis Charlie”.

Governos e líderes de todo o mundo condenaram o ataque ao jornal, às pessoas e à liberdade de expressão. A Universidade Al-Azhar, principal centro teológico sunita do mundo islâmico fez o mesmo, divulgando a mensagem: “A religião islâmica é contra violência”

Verificou-se grande cobertura mediática dos acontecimentos, manifestações de pesar, condenações ao ataque nas redes sociais (Twitter, Facebook, etc.). Partilhas de imagens com a mensagem “Je suis Charlie” foram uma constante durante vários dias.

Foi ainda realizado uma marcha pelas ruas de Paris que reuniu mais de 1 milhão de pessoas, além de Governos e líderes mundiais, estadistas muçulmanos e judeus. Segundo o Jornal “Le Monde” mais de 4 milhões de pessoas foram às ruas mostrar apoio à Liberdade de Expressão.

Cerca de 50 chefes de Estados e de instituições internacionais participaram na cerimónia pelas vítimas dos atentados terroristas na Grande Sinagoga de Paris.

Em relação ao Quénia, a dimensão das manifestações públicas são foram as mesmas como as que se verificaram em França. Será que a vida de 147 pessoas tem menos valor?

Infelizmente, existem vidas às quais são dadas mais valor do que outras. E como africana, acho que valorização maior das vidas africanas devia partir de nós próprios e do próprio continente.

Até quando iremos exigir que os outros façam alguma coisa por nós, quando os próprios Governos/líderes africanos estão a tomar conta dos seus próprios interesses?

Quantos líderes africanos condenaram publicamente os ataques? Tal como aconteceu em França, viram algum?

Que valor foi dado às vidas dos jovens que virão os seus sonhos interrompidos? As suas vidas foram arrancadas de forma bárbara e do próprio continente escutámos sobretudo um silêncio ensurdecedor.

Estamos sempre à espera que a comunidade internacional seja a nossa voz, condene os ataques dentro do nosso continente, condene a pobreza e nos defenda. Apesar dos discursos dos nossos líderes que, de forma veemente recusam a atitude paternalista dos “ex colonialistas”, continuamos a ser agentes passivos da nossa própria história.

O pensamento vigente de perpetuação da ajuda que vem de fora devia começar a ser alterado a partir do próprio continente. As outras potências mundiais estão a defender e a zelar sobretudo pelos seus próprios interesses, através da perpetuação de conflitos noutras partes do mundo (ou assobiam para o lado), exploram em condições “especiais” as matérias-primas, defendem os seus interesses estratégicos, etc.

Que governo ou líder africano defende o interesse dos seus? Enquanto esta atitude persistir não teremos como africanos o mesmo valor aos olhos do resto do mundo.

É altura de serem criadas dentro do próprio continente soluções para os nossos próprios problemas, quem melhor do que nós conhece e sente as nossas dificuldades? Recuso-me a acreditar que dentro do continente africano não existe capacidade para sermos autores dos nossos próprios destinos, se houver interesse efectivo que assim aconteça.

Os outros não vão dar mais valor às vidas africanas do que África dá aos seus!…

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A ideia de raças

Após uns mesitos de afastamento por causa de uma formação que me manteve ocupada, regresso ao meu blog para partilhar um estudo muito interessante sobre raças que nos mostra mais uma vez que os ódios injustificados com base na raça não têm qualquer fundamento…

Deem uma leitura, pois vale a pena…

Raças, um conceito social antiquado

Os cientistas estimam que 99,9% dos genes humanos são iguais em qualquer pessoa. Inclusivamente, dos restantes 0,1% que podem apresentar variações, só 10% deles estão relacionados com a aparência física e cor da pele, resultado apenas do processo evolutivo dos seres humanos perante as necessidades de adaptação às condições ambientais em que viveram. Logo, não existem raças humanas, mas uma única raça, que surgiu em África.

O conceito de raça não tem validade alguma na espécie humana. Os estudos do genoma humano evidenciam que os seres humanos constituem uma só espécie biológica. As diferenças físicas entre os humanos são imensas, porém a ciência comprovou, através do Projecto Genoma, que mesmo com essas diferenças a espécie humana é única. Não importa se a sua pele é negra ou branca, se os seus olhos são arredondados ou rasgados, se os seus cabelos são lisos, crespos, pretos ou loiros – todos fazemos parte da mesma espécie.

As diferenças físicas encontradas nos seres humanos resultam apenas do seu processo evolutivo diante das necessidades de adaptação às condições ambientais em que viveram. Afinal, uma selecção natural. Os cientistas suspeitavam há muito que as categorias raciais reconhecidas pela sociedade não se reflectem no plano genético. Quanto mais de perto os investigadores investigam o genoma humano – o material genético incluído em quase todas as células do corpo -, mais se convence a maioria deles de que as etiquetas habituais utilizadas para distinguir as pessoas pela sua ‘raça’ têm muito pouco ou nenhum significado biológico. A inexistência das raças biológicas ganhou força com as recentes pesquisas genéticas.

Os geneticistas descobriram que a constituição genética de todos os indivíduos é semelhante o suficiente para que a pequena percentagem de genes que se distinguem (que inclui a aparência física, a cor da pele, etc.) não justifique a classificação da sociedade em raças. Essa pequena quantidade de genes diferentes está geralmente ligada à adaptação do indivíduo aos diferentes meios ambientais. Assim, o homem saiu da África e chegou à Ásia, e de lá foi para a Oceânia, para a Europa e, por fim, para a América.

Nas regiões menos ensolaradas, a pele negra começou a bloquear de mais os raios ultravioleta, sabidamente nocivos mas essenciais para a formação da vitamina D, necessária para manter o sistema imunológico e desenvolver os ossos. Por isso, as populações que migraram para regiões menos ensolaradas desenvolveram uma pele mais clara para aumentar a absorção de raios ultravioleta. Portanto, a diferença de coloração da pele, da mais clara até à mais escura, indicaria simplesmente que a evolução do homem procurou encontrar uma forma de regular nutrientes.

Os investigadores afirmam que embora possa parecer fácil dizer à vista desarmada se uma pessoa é caucasiana, africana ou asiática, a facilidade desaparece quando se comprovam características internas e se rastreia o genoma do ADN em busca de sinais relacionados com a ‘raça’. Até o mais famoso e conhecido geneticista do mundo actual, John Craig Venter, diz que “a raça é um conceito social, não científico”. Todos evoluímos nos últimos 100 mil anos a partir do mesmo grupo reduzido de tribos que emigraram da África e colonizaram o mundo”.

Não há raças, há espécies humanas

Ao espalharem-se pelo mundo, os humanos só tinham uma arma para enfrentar uma grande variedade de ambientes: a sua aparência. Perante o calor excessivo, a altura ajuda a evaporar o suor, como é o caso dos quenianos.

O cabelo encarapinhado ajuda a reter o suor no couro cabeludo e a arrefecê-lo; o oposto vale para as populações das regiões mais frias do planeta. O corpo e a cabeça dos mongóis, que se desenvolveram por lá, tendem a ser arredondados para guardar calor, o nariz, pequeno para não congelar, com narinas estreitas para aquecer o ar que chega aos pulmões, e os olhos, alongados e protegidos do vento por dobras de pele.

Os cientistas afirmam que os traços geralmente mais utilizados para distinguir uma ‘raça’ de outra, como a cor da pele e dos olhos, ou a largura do nariz, são traços controlados por um número relativamente pequeno de genes, e portanto puderam mudar rapidamente em resposta a pressões ambientais extremas durante o curto caminho da história do Homo sapiens.

Cada um de nós é único, e sabemos isso porque podemos identificar perfeitamente um indivíduo pelo seu código genético, a não ser que tenha um gémeo idêntico. Mas, tratando-se de grupos, sabe-se que as diferenças não escondem diferenças genéticas. As populações da África Central e da Papua- Nova Guiné, parecidas fisicamente, pois viveram no mesmo tipo de meio ambiente, têm os patrimónios genéticos mais diferenciados no mundo. É interessante observar como, ao longo da história, as políticas racistas nunca deixaram de pedir à ciência que legitimasse a sua hierarquização social, os seus preconceitos e exclusões.

Muitos foram os cientistas que prontamente se puseram a conceber teorias, instrumentos de medição, critérios e teses que supostamente definiam as características das diferentes ‘raças’ humanas e formulavam a base de sustentação de uma série de eventos que marcaram a história do homem, da expansão colonial europeia ao Apartheid sul-africano, do segregacionismo norte- -americano ao nazismo.

Eles acreditavam em raças, conjuntos de traços físicos e psicológicos distintos, hereditários. Mas a noção de raça acabou desacreditada pelos biólogos que, bem antes de 1960, determinaram a variabilidade genética nos grupos humanos. Defenderam que as diferenças físicas entre as pessoas foram marcadamente construídas ao longo de milhares de anos pelo processo de selecção natural e regidas pelas condições climáticas e ambientais das diferentes regiões do mundo.

Conforme se observou no Projecto Genoma, as diferenças genéticas entre dois indivíduos não chega a 1%, e os cientistas crêem que os traços físicos externos correspondem a apenas 0,01% dos genes, portanto não existem raças humanas, mas, sim, uma única raça que surgiu em África.

Fonte: http://expansao.co.ao/Artigo/Geral/56647

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Dicotomia entre o que se diz e o que se faz

No passado dia 20 de Novembro, participei nas comemorações dos 25 anos sobre a Convenção dos Direitos das Crianças, promovido pela UNICEF. Uma das frases escutadas chamou-me atenção “Os primeiros 5 anos de vida da criança são cruciais”. Esta frase lança o mote para o que escrevo hoje.

Confesso que, se existem situações que me conseguem desarmar e revoltar é quando fazem mal a uma criança. Uma criança que não tem como se defender perante adultos que conseguem através da rejeição e de maneira fria evidenciar extrema crueldade. Maya Angelou numa frase sua disse “Eu aprendi que as pessoas vão esquecer-se do que disseste, as pessoas vão esquecer-se do que fizeste, mas as pessoas nunca se vão esquecer da maneira como as fizeste sentir”.

A crueldade de que falo aqui, não é apenas a violência física, é a violência verbal, psicológica, a rejeição, os comportamentos que evidenciam tratamento desigual…

Como africanos muitas vezes gritamos a plenos pulmões dizendo que, a nossa matriz de família é alargada, e mais, diz-se que: filho do meu irmão é meu filho” e nem se tem plena noção do valor, da força destas palavras.

Se tal fosse verdade, ter-se-ia a capacidade de amar o sobrinho como o seu próprio filho: Pai que é pai e mãe que é mãe, (não estou a falar daqueles que cumprem apenas o seu papel biológico da maternidade ou paternidade), ama, protege, cuida, alimenta, educa, não descrimina, não maltrata e não desiste do seu filho/a.

Como é que se grita a plenos pulmões “filho do meu irmão é meu filho” e depois os comportamentos para com os sobrinhos/as não correspondem às palavras que são orgulhosamente pronunciadas?

Existe uma evidente dicotomia entre aquilo que se diz e aquilo que se faz.

Por exemplo, se uma criança vive em casa dos tios, verifica-se que o filho biológico tem direitos, direitos e mais direitos, enquanto o sobrinho tem obrigações, obrigações e mais obrigações.

O sobrinho deve lavar a loiça, deve cuidar dos primos, deve cuidar da lida da casa, ir às compras, acartar água, também come num prato e bebe num copo diferentes.

No entanto, grita-se orgulhosamente, “filho do meu irmão é meu filho”.

Na nossa sociedade, temos presenciado a várias situações que evidenciam os abusos contra as crianças, negligência, abandono, descriminação, trabalho forçado, crianças fora do Sistema de ensino, abuso sexual, fuga à paternidade, falta de protecção, falta de registo do nascimento, etc.

O que passa com a nossa sociedade? Existe uma extrema preocupação com a aparência, vale o parece e não o que se é. Estamos embriagados com as festas, o kuduro, os ambientes, as sentadas, enquanto o cultivo do que se é como pessoa está guardado no fundo de uma velha mala, gasta e enferrujada…

Estar inserido nesta sociedade requer um esforço constante, para não nos habituarmos com situações deste género. O perigoso é quando os comportamentos que atrás listei são adoptados como normais nas nossas relações interpessoais e deixam de nos chocar.

É normal ser violento, é normal maltratar, é normal discriminar, é normal ser um abusador, é normal não se comover, é normal violar os direitos, é normal desprezar e a lista continua…

Acho que nos devemos questionar que sociedade queremos? Que mensagem estamos a passar para as nossas crianças?

Porque quem cresce com este tipo de referências irá reproduzi-las mais tarde com aqueles que vierem. A criança imita e aprende tudo o que vê.

E fecho este texto com o pensamento de Nelson Mandela que tão bem exprimiu numa frase a preocupação com o tratamento que damos às crianças “Não existe revelação mais nítida da alma de uma sociedade do que a forma como esta trata as suas crianças. A história nos julgará pela diferença que fizermos todos os dias na vida das crianças.”

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O lenhador e a raposa

Confesso que quando penso numa situação recente que aconteceu, ocorre-me a história do lenhador e da raposa que partilho a seguir.

Um lenhador acordava todos os dias às 6 da manhã e trabalhava o dia todo cortando lenha. Tinha um lindo filho, de poucos meses e uma raposa sua amiga, que tratava com todo o carinho e em quem tinha total confiança.

Todos os dias, o lenhador, que era viúvo, ia trabalhar e deixava a raposa a cuidar do bebé. Ao anoitecer, a raposa ficava feliz com a sua chegada.

Sistematicamente, os vizinhos do lenhador alertavam-no, dizendo que a raposa era um animal selvagem, e, portanto, não era confiável. Quando sentisse fome poderia comer o seu filho. O lenhador acreditava que a raposa era sua amiga e que jamais faria isso. Os vizinhos insistiam:

– Lenhador, abra os olhos!

– A raposa vai comer seu filho.

– Quando ela sentir fome vai devorar seu filho!

Um dia, o lenhador, regressando a casa cansado do trabalho duro do dia, encontrou à sua espera, à porta de casa, a raposa sorrindo, como sempre, mas com a boca ensanguentada. O lenhador, com o coração apertado, desferiu um golpe com o machado e matou a raposa. Depois, dirigiu-se a correr, desesperado ao quarto do filho. Encontrou o filho a dormir tranquilamente e, ao lado do berço, uma cobra morta.

Desfaleceu, chorou compulsivamente e invadiu-o um sentimento indiscritível de perda profunda.

No dia seguinte, destroçado pegou no machado e na raposa e enterrou-os, juntos, no quintal de sua casa.

 Autor desconhecido.

Avaliar situações, historias contadas, julgar as pessoas simplesmente por influência dos outros é realmente tramado para quem é visado. Por causa destes pressupostos, amizades, relações, pessoas excepcionais, bons profissionais, economias, países, são irremediavelmente manchados e prejudicados.

No meio de todas essas situações confesso que, não sei o que é pior, quem julga (e condena) simplesmente porque sente uma antipatia inexplicável por alguém ou quem não se dá ao trabalho sequer de perceber o outro lado da história e se torna juiz numa causa que não é a sua.

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Era uma vez umas marionetas…

No país da irracionalidade as marionetas compram guerras que não são suas.

O discernimento dilui-se e as histórias deixam de ter os dois lados: as marionetas olham para a realidade através das lentes dos olhos dos outros.

 No país da irracionalidade quem tem a capacidade de manipular é rei, usam-se os peões e consegue-se com que todos os que são próximos vejam as coisas com um olhar que não é o seu (apesar dos mesmos acharem que sim).

 No país da irracionalidade as pessoas perderam a capacidade de analisar por si mesmas, vivem viradas para dentro do seu pequeno mundo e não vêem um palmo à sua frente.

 No país da irracionalidade ganha mais adeptos quem melhor contar a sua versão da história, de tal forma e convicção que passa a ser a única verdade.

 No país da irracionalidade a guerra faz-se nos bastidores, e nas sombras, manipulam-se as opiniões de tal modo que um santo passa a demónio, um demónio passa a santo, o falso passa a genuíno, o mesquinho passa a generoso e a lista continua…

 No país da irracionalidade, as marionetas convictas de que, essa é a sua verdade colocam-se em frente da infantaria de peito aberto pensando que estão a enfrentar um inimigo terrível que, afinal não passou de uma vítima, observada através de olhos dos outros que dela fabricaram uma imagem distorcida e deturpada…

No país da irracionalidade: o dia-a-dia é um desafio, mais do que nunca todos os sentidos devem estar despertos para própria protecção.

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União Europeia viola Direitos Humanos

Ao ler o Jornal de Angola, deparei-me com um título que prendeu a minha atenção “União Europeia viola os Direitos Humanos -Política migratória do bloco europeu põe em risco a vida de milhares de refugiados”. Passo a transcrever parte do artigo: “As políticas de imigração e controlo das fronteiras da fortaleza Europa” violam gravemente princípios fundamentais dos Direitos Humanos, afirma um relatório da Amnistia Internacional. Estas praticas estão a bloquear o acesso ao asilo de centenas de refugiados e emigrantes, pondo em risco as vidas de pessoas que enfrentam viagens cada vez mais perigosas para chegar a Europa. A organização acusa os líderes europeus de nada terem feito para evitar as sucessivas tragédias no Mediterrâneo com emigrantes idos do Norte de África e do Médio Oriente. A Europa e os seus Estados-membros construíram uma fortaleza cada vez mais impenetrável para impedir a entrada de ilegais…” Confesso que, num primeiro momento pensei, será que cabe aos outros alterar completamente as suas políticas de migração ou cabe a nós, à África e aos africanos, tornar o continente um lugar seguro para que, as suas populações não tenham necessidade de fugir em debandada, colocando em risco as suas vidas viajando em barcos sobrelotados na expectativa de alcançar uma vida melhor na Europa? O problema aqui, do meu posto de vista, não é o proteccionismo das fronteiras europeias. Ora convenhamos, qualquer País iria tomar medidas adicionais, apertar a aplicação das leis de emigração para proteger as suas fronteiras em situações de entrada de emigrantes em larga escala como a que se verifica. O problema de fundo é a falta de segurança nos países africanos, a instabilidade, a guerra civil na Síria e os outros conflitos na região do corno de África, a falta de condições económico-sociais, a pobreza extrema, a má governação, etc… O número de emigrantes que perdem a vida na tentativa de alcançar a Europa é alarmante. Segundo o Jornal de Angola, nos primeiros cinco meses de 2014, mais de 170 pessoas morreram no Mediterrâneo e Mar Egeu, temendo-se que centenas de desparecidos também tenham morrido. Estima-se que desde 2000, 23.000 emigrantes perderam a vida.

Não podemos continuar a ignorar este facto, vidas humanas tem-se perdido no mar e somos bombardeados diariamente com noticias deste género nos meios de comunicação social. Cabe aos africanos a responsabilidade de fazer melhor. Introduzo neste meu pensamento parte do artigo “À porta da modernidade, há sete sapatos sujos que necessitamos de descalçar” do escritor moçambicano, Mia Couto. Temos que descalçar o primeiro sapato sujo: A ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vitimas. Nós já conhecemos este discurso; a culpa já foi da guerra, do colonialismo, do imperialismo, do apartheid, enfim, de tudo e de todos. Menos nossa. É verdade que os outros tiveram a sua dose de culpa no nosso sofrimento. Mas parte da responsabilidade sempre morou dentro de casa.”

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